18/2/2009

Saiba como nascem os sambas que embalam os desfiles na Sapucaí

Numa reportagem especial que o Bom Dia levou seis meses para deixar pronta, como nasce um samba-enredo? Quem escreve as letras? Quem faz as melodias? E quem pode mudar tudo?

História rima com empolgação? E poesia combina com tamborim, surdo e repique? No carnaval, sim. A receita inclui ainda cadência, harmonia e técnica. Mas será que isso basta para criar um samba-enredo perfeito?

A equipe de reportagem do Bom Dia Brasil levou seis meses para encontrar essa resposta. Foram seis meses de produção e de entrevistas que resultaram em duas reportagens especiais.

Antes era só buscar inspiração. Hoje compositor de samba transpira para fazer o enredo criado pelos carnavalescos virar letra e música. No meio do ano, na Mocidade Independente de Padre Miguel, eles encheram a quadra para assistir às palestras sobre Machado de Assis e Guimarães Rosa, o tema do carnaval 2009 da escola.

“A gente vai narrar uma grande ópera popular. Para cada ato, será uma grande surpresa. A gente deixa bem claro que o primeiro ato é o prólogo. É o encontro do mar e o sertão, porque Machado de Assis vem do litoral carioca e Guimarães Rosa vem de Minas e dita que o sertão de Minas é a nossa cultura, é o nosso o Brasil real. Então, é uma licença poética para esse encontro de dois grandes mestres da literatura brasileira”, explicou aos compositores o carnavalesco da Mocidade, Claudio Cavalcanti, também conhecido como Cebola.

A Vila Isabel reuniu os compositores no lugar certo: o Teatro Municipal, enredo da azul-e-branca para este ano.

“Nosso enredo não só trata do espaço físico do prédio em si. A homenagem estende a todas as pessoas que fizeram a história deste local. Imaginem o carnaval que pode sair daqui? E isso é apenas um pedacinho do teatro. Se você vir cada detalhe da parte externa e da parte interna, vir a maravilha e a beleza da história que nós vamos encenar, grandes espetáculos que marcaram a história desse espaço, imagino que a Vila Isabel terá um carnaval como nenhum outro”, disse aos compositores Alex de Souza, carnavalesco da Vila Isabel.

Com as sinopses nas mãos, que são os resumos do enredo, eles se reúnem para criar. Na Mangueira, o carnaval trata da formação do povo brasileiro. Não é simples pegar a história das nossas raízes, da nossa miscigenação, e misturar, temperar e transformar em samba.

“Como a Mangueira e o povo se confundem, a gente poderia começar até dizendo no refrão que a Mangueira é a cara do povo”, sugeriu um compositor da verde-e-rosa.

O grupo da Mocidade Independente mexe no andamento e troca palavras para buscar a precisão. Mas não é fácil chegar a esse ponto. Nas escolas de samba, as comissões de carnaval eliminam por ano de 10 a 20 sambas que não se encaixam no perfil do desfile e nos critérios de julgamento.

No Salgueiro, por exemplo, antes de partir para a disputa na quadra, o samba-enredo ainda tem que passar pelo crivo do departamento cultural da escola e do carnavalesco Renato Lage. É uma espécie de banca examinadora que mete medo em muito compositor.

“Existem compositores e compositores. Tem Romários e não-Romários, a diferença está aí”, disse o carnavalesco do Salgueiro, Renato Lage. “Agora começa um outro detalhe, que é a disputa de samba com a bateria, com canto, com a escola e com a comunidade”, comentou Moisés Santiago, compositor do Salgueiro.

Dentro das escolas, as disputas de samba são como as eleições prévias nos Estados Unidos: uma grande convenção com muita festa, torcida organizada e cerveja para o pessoal.

A partir deste domingo (22), o teste definitivo será na Marquês de Sapucaí. De lá um samba pode cair no esquecimento, sair campeão ou passar para a história, para a galeria dos imortais. Na próxima reportagem, saiba por que os sambas antigos são mais cantados que os de hoje.

“O samba que mais toca todo brasileiro onde eu toco e sempre faço questão de cantar é o de Silas de Oliveira, ‘Aquarela brasileira’”,lembra o cantor e compositor Arlindo Cruz.

Fonte: www.g1.com.br